PublicaÇÃO 5 Anos Teatro na Justiça

Na comemoração dos cinco anos do Projeto, em 2004, realizou-se na EMERJ a exposição e o lançamento do catálogo 5 Anos de Teatro na Justiça, com fotos, depoimentos dos juristas-atores, desenhos, falas de personagens, e textos dos criadores do Projeto: Sílvia Monte e José Henrique.

Justiça e Teatro: Laços de Cultura

Dezembro de 1999. A primeira encenação do Teatro na Justiça é apresentada no auditório principal da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro – EMERJ. Casa cheia, expectativa, a história começa e todos fomos testemunhas dos primeiros passos do projeto que reuniu no palco juristas e atores, numa celebração original do Direito pelo Teatro. De lá pra cá foram realizados cinco espetáculos, e estamos em processo de criação do sexto.
A Arte Dramática tem com o Direito relação íntima e antiga. Justiça e Teatro têm caminhado juntos desde a Antigüidade. Já as tragédias gregas tratavam, dentre outros princípios morais, da questão da Justiça. Mas não foi só como tema que a Justiça esteve presente em toda a história do drama. O Direito e suas instituições são a forma explícita e normatizada de resolver questões decorrentes da relação entre seres humanos, assunto em que se baseia o Teatro. Em diversas obras da dramaturgia universal a própria trama exige alguma espécie de tribunal para a solução de conflitos entre os personagens.

Mas se o Direito alimenta o Teatro, também o inverso ocorre. Um julgamento é uma encenação de extrema radicalidade teatral: verdades, mentiras, provas, imposturas e jogo de cena, onde apenas o desfecho é imprevisível. Num tribunal, como no Teatro, não é somente o réu que está sendo julgado; é a sociedade inteira que está diante de um espelho. Reside aqui talvez o mais importante aspecto do Teatro na Justiça: a proposta de refletir e relativizar, por meio do jogo cênico, valores da Justiça; ou tornar a Justiça imprescindível e, portanto, absoluta.

Ao iniciarmos a pesquisa de textos dramatúrgicos para o primeiro espetáculo do Projeto, deparamo-nos com alguns cujas ações eram quase todas passadas num tribunal, o que nos fez imaginar o quanto poderia vir a ser interessante se os personagens daquele mundo jurídico fossem representados por personalidades deste mundo. Atores contracenando com verdadeiros profissionais do Direito em seus respectivos papéis.
A forma do projeto estava nascendo, mas ainda não sabíamos se iria vingar. Só seria possível animá-la se encontrássemos atores improvisados que viessem a emprestar um pouco da sua personalidade histriônica e, principalmente, do seu bom humor.

O disfarce é inerente à natureza humana e fazer parte do jogo de atuar é possível para qualquer pessoa que se permita brincar. Stanislavski, um dos maiores pensadores da história do teatro, denominou essa maneira séria de os atores e as crianças brincarem de “fé cênica”. E, de repente, nossos experientes e conhecidos professores, magistrados, advogados, colegas de profissão, se transmutaram em atores e brincaram como gente pequena.
Todos nós somos atores sociais e no Teatro na Justiça tivemos a honra de dividir o palco com dois tipos deles: os artistas, que trabalham com as paixões e são “as antenas das nossas emoções”; e os juristas que tentam, com o auxílio da razão, compreender as paixões, no exercício dos seus ofícios, para melhor representá-las ou julgá-las, em busca da paz social.

O Teatro na Justiça é a presença em si de uma experiência de manifestação artística concebida para um público específico, operadores do Direito, a fim de pensar valores específicos, na própria Casa da Justiça. Os espetáculos espelham conceitos de Justiça com aqueles e para aqueles que a praticam durante uma vida inteira.

Quem, desse público que nos acompanhou durante cinco anos, não é capaz de lembrar de algumas das encenações do Teatro na Justiça? E quantos desses espetáculos não apresentaram o embate forense como um espelho dos acontecimentos extrajudiciais, um mundo paralelo que representa a sociedade, com protagonistas e antagonistas, num palco de decisões? Não são advogados e juízes, portanto, atores dessas transformações sociais? E não é o teatro um evento capaz de tornar uma história parte de uma experiência viva? E, portanto, transformadora?

Desde 2001, o Departamento Cultural da EMERJ abraçou uma nova orientação que prioriza o aperfeiçoamento da formação humanística do magistrado por meio de ações culturais e artísticas. Desenvolvidos em agenda anual oferecida aos magistrados e à população, os eventos vêm estimular a interação entre as diversas formas de conhecimento: científico, artístico e religioso. Nada mais oportuno, portanto, para o departamento de cultura de uma escola voltada para a permanente formação de magistrados e outros profissionais do Direito, do que ter em sua programação uma homenagem artística à Justiça. E, desde então, o Teatro na Justiça foi incorporado à programação anual do Cultural EMERJ, pela comunhão dos propósitos de cruzamento do saber jurídico com a expressão artística.

O Teatro é a mais efêmera das Artes, e neste caso, mais efêmera ainda, já que os espetáculos são apresentados uma única vez. Esta publicação é o registro da história desses cinco anos, para que ela possa ser rememorada por aqueles que dela participaram (juristas, artistas, técnicos e público) e conhecida por outros que não tiveram a chance de comungar desse acontecimento de cultura. Nossas lembranças, alimentadas por fotos, textos, desenhos, imagens e falas dos personagens, organizadas nestas páginas, foram a forma que encontramos de compartilhar essa experiência.
A publicação 5 anos do Teatro na Justiça surge no momento em que o projeto parte para uma nova fase. Um dos fundamentos de qualquer experimento artístico é o compromisso de ser sempre provisório e eternamente mutável. E chegou o momento de experimentarmos novas formas. Nosso sexto espetáculo marca o início de uma nova etapa.
Os cinco espetáculos apresentados no decorrer dessa breve história propuseram-se a pensar o homem, a sua miséria moral, seus equívocos, dores, erros e acertos, com a ajuda dessa “livre tribuna”, que é o Teatro.
Dos primeiros anos, ficam as memórias aqui gravadas e o agradecimento muito especial a José Henrique, companheiro de viagem.

 
Sílvia Monte
Idealizadora e Produtora do Teatro na Justiça
(Texto do catálogo 5 Anos do Teatro na Justiça)

Da Palavra à Ação

Dos cinco espetáculos apresentados nesses primeiros anos do Teatro na Justiça, apenas um, "Medéia no Banco dos Réus", não foi sob a forma de "leitura dramatizada". Esse gênero de evento vem se tornando freqüente na programação teatral carioca, quase sempre com entrada franca e até ocupando horários regulares em casas de espetáculos ou espaços alternativos. Dentre as causas para o fenômeno certamente estão a sua maior viabilidade de produção, a disponibilidade de elencos em dias de semana alternativos aos das temporadas tradicionais, a menor necessidade de ensaios e o investimento na divulgação de nova dramaturgia.

As leituras do Teatro na Justiça, entretanto, justificam-se por critérios bastante diferentes. É bem verdade que foi, desde o começo, uma opção pragmática: a presença, no elenco, de profissionais do Direito, convidados justamente dentre os nomes de maior destaque (e agenda mais ocupada!) na área, impõe uma dinâmica especial de produção. Sabíamos que seria sempre difícil, como tem sido, contar com a participação dos juristas num grande número de ensaios; e ainda exigir deles a memorização das falas, tarefa às vezes árdua mesmo para um ator, seria transformar a homenagem em castigo.

Mas as coincidências de motivos com as outras "leituras"do mercado acba na economia de ensaios. Aliás, nem isso, porque não sei de nenhuma que seja tão ensaiada quanto as nossas, que nunca tiveram menos de oito encontros antes da "estréia". Nos outros quesitos, o TnJ deixa para trás, com enorme vantagem, tudo o que se chama de "leitura", e até a maioria do que é "dramatizado". O que fizemos nesses cinco anos estabeleceu um padrão artístico e de produção que redefine a expressão "leitura dramatizada". O Teatro na Justiça ultrapassa, desde seu primeiro espetáculo, a dimensão da homenagem para que foi concebido, e ocupar lugar exclusivo no panorama teatral do Rio de Janeiro. Não é apenas um evento "pitoresco” pela mistura de atores e não-atores em seu elenco; é um modelo de trabalho cultural bem sucedido.

Os espetáculos desenvolvidos pelo TnJ, sempre a partir de dramaturgia de alta qualidade, foram construindo para mim o conceito de "leitura dramatizada" como evento teatral autônomo e de linguagem própria, que não é mera etapa da criação de um produto acabado (a peça), mas uma obra realmente completa e independente, que inclui marcações, figurino, cenário, adereços, iluminação e trilha sonora concebidos de acordo com uma proposta coerente de encenação.

O primeiro aspecto que se evidencia numa leitura é sua flagrante, e obrigatória, teatralidade. A presença do texto na mão do ator, quase sempre um estorvo durante os ensaios de uma peça "de verdade", torná-se na leitura mais do que um adereço, e sua visibilidade funciona como licença poética: o "papel" do ator está literalmente em suas mãos, e dali saem os elementos necessários à encenação. Em "Testemunha da Acusação”, por exemplo, encadernamos as cópias em capas de processos, como se os atores seguissem, junto com o público, fatos descritos em autos judiciais. Em "O Caso Alma", os textos vieram disfarçados de tablóides sensacionalistas cujas manchetes acompanhavam o desenrolar da trama. Não é uma camuflagem; é parte integrante do espetáculo, reforçando a proposta cênica e o entendimento da história.

A restrição à gestualidade dos atores é compensada pela liberdade no uso de ilustrações. Estas funcionam no palco exatamente como a de um livro, completando a informação com imagens associadas às cenas. Apresentadas paralelamente, em dimensões ou planos fantásticos, as ilustrações enfatizam as falas, destacam detalhes e reconstroem tempo e espaço da ação, aproveitando-se da fragilidade da atenção da platéia sobre um ator que está obrigado a ler. A fragmentação da mesa, no terceiro ato de "Doze Jurados e Uma Sentença", e a "pantomima da evolução" de "O Vento Será Sua Herança", aplaudida em cena aberta,  são exemplos desse recurso, de grande força teatral e clareza de linguagem. Confesso que teria hesitado em adotar, se não fossem leituras, algumas das soluções cênicas dos espetáculos do Teatro na Justiça.

Uma suposta dificuldade seria o auditório da Escola da Magistratura, muito confortável para o espectador mas desprovido de equipamentos cênicos. Além disso, seu palco, baixo e muito mais largo do que profundo, foi projetado para abrigar eventos acadêmicos e cerimônias oficiais, possuindo forma e dimensões pouco adequadas à prática teatral.  A iluminação, que no caso de leituras merece especial cuidado, existe locação e montagem completa a cada evento, e é impossível operar o som da cabine, isolada acusticamente do auditório. Mas existe ali uma coleção de "brinquedinhos” que convidam à experimentação: câmeras e projetores estão disponíveis, numa tentação a que resisti somente na "Medéia", que já arriscava bastante na mistura de ficção e retórica forense. Em "Testemunha da Acusação", aproveitamos o telão para levantar o clima "cinematográfico" que inspirou a montagem; os "Doze Jurados" assistiram em vídeo à preleção do juiz (interpretado pelo então presidente do Tribunal de Justiça, Des. Marcus Faver, que encontrou uma hora em sua agenda para, alguns dias antes do espetáculo, gravar a cena); no "Vento" a integração de meios foi total, com a cena e a transmissão ao vivo pelo telão exibindo ao público simultaneamente, o conjunto e o detalhe; e "O Caso Alma" teve uma de suas cenas adaptada, com o auxílio de um projeto de slides, para a estética dos desenhistas forenses dos julgamentos ingleses.Em cada caso, uma questão suscitada pelo próprio texto recebeu uma resposta técnica, adequada à linguagem do espetáculo, que os recursos do auditório da EMERJ puderam propiciar.

Saindo da estética cênica para o campo da produção, outras marcas do Teatro na Justiça são a qualidade do material produzido sobre o evento (cartazes, programas, divulgação, fotografia, etc.) e, acima de tudo, a atenção dispensada à equipe de criação. Mesmo antes da incorporação do projeto à programação do Departamento Cultural da EMERJ, que só ocorreu em 2001, já era notável o tratamento "VIP" que a produção dava igualmente às estrelas "da casa" (advogados e magistrados) e aos profissionais de teatro.

Embora este catálogo apresente um pouco dos cinco espetáculos "oficiais” do Teatro na Justiça, vale mencionar três eventos derivados do projeto, apresentados em outras ocasiões e que poderíamos, na gíria do futebol, classificar de "amistosos". Dois deles também leitura, em que muito se assemelham aos trabalhos aqui documentados, e poderiam ser incluídos no conjunto da produção TnJ: "O Beijo no Asfalto", de Nelson Rodrigues, participante de um ciclo de leituras da obra do dramaturgo carioca, em 2000; e "Henrique V", de Shakespeare, apresentado em 2003 no próprio auditório da EMERJ, como parte de um seminário de debates sobre "Guerra e Paz". No primeiro caso, "exportamos" para outros ofícios o que sempre fizemos com os profissionais do Direito, convidando o jornalista Pedro Bial e o delegado Ivo Raposo para os papéis, respectivamente, do repórter "Amado Ribeiro" e do "Delegado Cunha".

O terceiro evento não foi exatamente uma produção do Teatro na Justiça, mas resultou indiretamente da pesquisa feita para "Medéia no Banco dos Réus". O Dr. Nilo Batista, que apesar de rejeitados convites nunca se arriscou no banco do TnJ, auxiliava-nos como consultor para a construção da "dramaturgia jurídica" daquele espetáculo, quando recebeu o encargo de defender um homem que matara a esposa por ciúmes e, ato contínuo, tentara o suicídio. Nilo o chamou, em conversa comigo, de "Otelo do Subúrbio", e ponderou valer-se, em sustentação, das falas finais do mouro de Veneza. Sugeri-lhe uma opção mais radical, de que se levasse à sessão do Tribunal do Júri um ator que interpretaria a própria cena diante dos jurados. Para minha surpresa, tanto Nilo quanto o juiz do caso endossaram a idéia, e o fato inusitado acabou fazendo a primeira página do Jornal do Brasil.  Mais do que mera curiosidade, esse pequeno "produto alternativo" do Teatro na Justiça serviu para evidenciar, acima do caráter de homenagem, um dos fundamentos de todo o projeto: o Teatro como espaço de reflexão sobre os conceitos e valores da Justiça. Somos, afinal, o Teatro NA Justiça, com toda a conotação de interferência que a preposição possa assumir.

Os caminhos do TnJ  têm sido de experimentação. Uma jornada que me coube, na parte estética, conduzir, acompanhado o tempo todo por artistas e técnicos que acreditaram que essa aventura seria muito mais do que uma brincadeira de fim de ano;por advogados e magistrado que se permitiram obedecer às leis do palco; e sobretudo pelo talento e competência de Sílvia Monte, uma atriz que nunca soube respeitar os limites do "possível", provocando no Judiciário fluminense uma transformação que nem todos ainda perceberam, mas que ninguém deixará de aproveitar.

 
José Henrique
Diretor Artístico do Teatro na Justiça
(Texto do catálogo 5 Anos do Teatro na Justiça)




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culturalemerj@tj.rj.gov.br 

 

 

 

 

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