LIVRO ABERTO / ANO VI

Encontros Literários e Leituras Encenadas

3, 10, 17 e 24 – Setembro de 2007

 

A programação cultural da EMERJ reserva há seis anos o mês de setembro para em seu Livro Aberto festejar a literatura contemporânea brasileira, reunindo escritores e leitores em torno da criação literária.

Nesta sexta edição o escritor Marcelo Backes assina a curadoria do ciclo no qual teremos o prazer de receber quatro importantes escritores: o mineiro Luiz Vilela, especialista do diálogo, considerado um dos nossos grandes contistas; o sergipano Francisco Dantas, descendente da rica tradição rural e nordestina de nossa literatura, um dos maiores romancistas brasileiros; o gaúcho Flávio Tavares, memorialista, que também passeia com habilidade pelos gêneros do conto e do poema; e o também sulista Fabrício Carpinejar, um dos nomes mais reconhecidos da nova geração de poetas.

Após o bate-papo inicial de Marcelo Backes com os escritores homenageados, será apresentada a leitura dramatizada de textos dos autores, realizada por atores convidados, sob direção do Curso de Direção Teatral da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para finalizar o encontro segue-se o debate com o público.

O LIVRO ABERTO acontece na Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro, a entrada é franca e aberta ao público em geral.

ProgramaÇÃO

3/9Luiz Vilela
Leitura de Bóris e Dóris

10/9 Francisco Dantas
Leitura de Sob o Peso das Sombras

17/9 – Flávio Tavares
Leitura de O Dia em que Getúlio Matou Allende

24/9Fabrício Carpinejar
Leitura de Meu Filho, Minha Filha

Horário dos encontros: 18h30


“Há seis anos, sempre no mês de setembro, o
Livro Aberto convida todos os amantes da literatura a um mergulho em três etapas na obra de escritores brasileiros contemporâneos. O primeiro momento é uma entrevista com o escritor convidado, conduzida pelo curador do ciclo; a seguir é apresentada a leitura dramatizada de um trecho da obra do escritor, sob a responsabilidade de atores convidados, dirigida pelo Curso de Direção Teatral da Escola de Comunicação da UFRJ, parceiro desde a primeira edição; e para coroar o encontro, no momento final, é aberto um debate com o público.

Depois de cada
Livro Aberto resta sempre a certeza de que um novo setembro virá, dando razão ao grande Quintana: ‘Fora da poesia não há salvação.’

Sílvia Monte
Diretora
Cultural EMERJ

Com seu formato ao mesmo tempo inteligente e atraente, o Livro Aberto proporciona uma oportunidade ímpar de conhecer e debater a obra de importantes autores brasileiros contemporâneos. Essa obra é discutida de fora para dentro, por assim dizer, através do bate-papo com o autor, e de dentro para fora com a leitura dramática de uma parte representativa da mesma obra. Na primeira das abordagens, a dissecação crítica a partir das perguntas do entrevistador e da opinião do próprio autor acerca de sua obra; na segunda, a interpretação artística a partir da leitura dramática de um trecho representativo dessa obra.

Nesta sexta edição do Livro Aberto, fui convidado a fazer a curadoria do ciclo. Minha tarefa inicial consistiu em escolher um quarteto de escritores representativos e variados da nossa literatura, que ainda não tivessem participado do projeto em edições anteriores; o passo seguinte foi selecionar alguns fragmentos de suas obras para as leituras dramáticas; e, por fim, durante a realização do ciclo, terei a chance de entrevistar cada um dos escritores escolhidos, apresentando sua obra. E Luiz Vilela, Francisco J. C. Dantas, Flávio Tavares e Fabrício Carpinejar são por certo quatro importantes nomes da literatura atual.

Marcelo Backes
Curador

Escritores Homenageados
Luiz Vilela – Nasceu em Ituiutaba, Minas Gerais, em 1942. Formado em Filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), começou a escrever aos 13 anos. Foi jornalista em São Paulo, viveu nos Estados Unidos e na Espanha e atualmente mora em sua cidade natal. Estreou na literatura aos 24 anos com a coletânea de contos Tremor de Terra, pela qual recebeu o Prêmio Nacional de Ficção. Vilela também ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro de contos do ano com O Fim de Tudo. Em 2002, depois de mais de 20 anos sem publicar um livro de contos, deu ao público a coletânea A Cabeça, que voltou a chamar a atenção da crítica à qualidade do autor. Entre outras obras, Vilela é também autor de Bóris e Dóris, novela publicada em 2006. Suas obras, que serão todas elas republicadas em breve, foram traduzidas para várias línguas e adaptadas ao teatro, ao cinema e à televisão.

– Aí? Aí eu me aproximei devagar, e então a mulher, essa hora, levantou a cabeça, olhou para mim e sorriu, o sorriso mais triste do mundo; e aí eu vi, apavorada, que aquela mulher...
– O quê?
– Aquela mulher era eu!
– Você?...
– Eu! Aquela mulher era eu! Eu daqui a vinte anos!
– Hum...
– Aí eu subi depressa para o quarto, tranquei a porta e fiquei lá, impressionadíssima. Aí eu...
– Dóris: briefing.
– Eu fiquei tão intrigada, fiquei tão intrigada que eu voltei. E quando eu chego ali embaixo, quando eu chego ali e olho para a poltrona onde estava a mulher...

(Bóris e Dóris / Luiz Vilela. Rio de Janeiro: Record, 2006)

Francisco J.C. Dantas – Nasceu em Riachão do Dantas, Sergipe, em 1941. É mestre e doutor em Letras e foi professor da Universidade Federal de Sergipe. Também lecionou em Berkeley (Universidade da Califórnia), em 2000, mesmo ano em que recebeu o Prêmio Internacional da União Latina de Literaturas Românicas. Estreou na literatura já maduro, aos 50 anos, com o romance Coivara da Memória, em 1991; a obra deixou claro desde logo – e em alto estilo – que a tradição rural de autores regionalistas como José Lins do Rego estava longe de estar morta no Brasil. Dantas é também autor do romance Os Desvalidos (1993) e das cinco histórias intimamente unidas de Cartilha do Silêncio (1997), do ensaio A Mulher na Obra de Eça de Queiroz (1999), do romance Sob o Peso das Sombras (2004) e da novela Cabo Josino Viloso (2005).

As aulas eram ministradas aos domingos, após a missa das nove. E, no resto da semana, brigando contra o tempo, lendo um bando de poemas, aprendi a esperar. Foi um aprendizado arenoso. Eu torcia as mãos, torcia pra que chegasse o domingo, ansiava pra rever a Damarina. Não nego que estudei com mais afinco a História Sagrada, com propósito de colher exemplos maravilhosos somente pra mantê-la impressionada, visgá-la na minha palavra. Eu afetava a voz, fazia uma pausa de efeito, e ficava suspenso de seus olhos, aguardando o resultado. Ainda hoje, revivendo os primórdios desse meu apego a Damarina, desconfio que Leopolda, pela maneira dura de responder à irmã ou me encarar, desaprovava o nosso caso. Trata-se apenas de uma lembrança vaga, é certo; admito até que possa estar sendo leviano, mas nunca esqueci aquele movimento zangado com que Leopolda sacudia os cabelos soltos para trás, exibindo a face agastada.

(Sob o Peso das Sombras / Francisco J. C. Dantas. São Paulo: Editora Planeta do Brasil,2004)

Flávio Tavares – Nasceu em Lajeado, Rio Grande do Sul, em 1934. Foi colunista político do jornal Última Hora entre 1960 e 1968; preso e banido do Brasil pela ditadura militar, foi redator do jornal mexicano Excelsior no exílio e correspondente de O Estado de S. Paulo em Buenos Aires e Lisboa. De volta ao Brasil, foi editorialista político de O Estado, mais tarde correspondente da Folha de S. Paulo na Argentina. Tavares é autor de Memórias do esquecimento, uma das obras mais importantes sobre a ditadura no Brasil e sobre a tortura de um modo geral, que teve edição revista e ampliada em 2005, e de O dia em que Getúlio matou Allende (2004), uma narrativa que disseca o poder, agraciada com o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte. Ainda este ano publicará um livro com as fotos comentadas de seu encontro com Che Guevara, em 1961.

Na cidade de Guanajuato, por exemplo, mostraram-me a prisão onde esteve encerrado o Imperador Maximiliano de Habsburg, após ser deposto pela revolução de Benito Juárez. Um quartinho com grades, direto para um pátio, em que o puseram para permitir que fugisse. Como lá permanecesse imóvel, um intermediário ofereceu-lhe concretamente a fuga, mas ele respondeu que um Habsburg não fugia.

Depois, uns metros adiante, mostraram-me o pátio em que ele foi executado frente a um muro, junto aos mais altos membros do seu governo. Com boa vontade e perfeita ilusão óptica, podiam-se descobrir dezenas ou centenas de orifícios de bala nas paredes, nas quais o tempo fizera mais buracos do que o furor dos revolucionários vitoriosos. Era ali o lugar exato do episódio que tornou célebre o austríaco feito Imperador do México: houve gestos, gritos e um pequeno tumulto quando os condenados foram postos em fila e um deles, ao lado do Imperador, perguntou se aquilo era o sinal para a execução.

– Não sei, é a primeira vez que me executam num muro! – esclareceu Maximiliano.

(O Dia em que Getúlio Matou Allende/ Flávio Tavares- 6ª Edição – Rio de Janeiro: Record, 2004)

Fabrício Carpinejar – Nasceu em Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, em 1972. É poeta, cronista, jornalista e professor, idealizador do Curso de Formação de Escritores da Unisinos. Estreou na literatura em 1998 com os poemas de As Solas do Sol. Carpinejar é também autor de livros infantis como Filhote de Cruz Credo (2006) e das crônicas de O Amor Esquece de Começar (também de 2006). Sua antologia Caixa de Sapatos (2005) foi publicada em Portugal. Entre outros prêmios recebeu o Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras em 2003 por Biografia de uma Árvore (2002), o Prêmio Nacional Cecília Meireles, da União Brasileira de Escritores em 2002 por Terceira Sede (2001) e o Prêmio Literário Internacional Marengo D’Oro, de Gênova (Itália) por alguns dos poemas de Um Terno de Pássaros ao Sul (2000). Carpinejar teve obras traduzidas para o alemão, o italiano e o francês.

Muito rente da pele,
Assim como descascava maçã e levava com a faca
Uma lasca por vez em tua boca.

Tudo o que vivi foi rente à pele.
Deixei de ser pai e virei a pensão de tua mãe.
Não esqueço o dia em que um oficial de justiça

Bateu à minha porta a cobrar
O que já concedia naturalmente.
No papel timbrado, teu nome contra o meu.

O nome que escolhi contra o meu.
O nome que sonhei contra o meu.
Fui teu primeiro réu, sem que tu soubesses.

(Meu Filho, Minha Filha / Carpinejar. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.)

Curadoria Literária e Condução das Entrevistas
Marcelo Backes é escritor, tradutor, professor e crítico literário. Mestre em Literatura Brasileira, doutorou-se em Germanística e Romanística pela Universidade de Freiburg (Alemanha). Colabora com diversos jornais e revistas no Brasil, conferenciou nas universidades de Viena e de Freiburg, e em cidades como Berlim e Frankfurt. Entre 2003 e 2005 foi professor na Universidade de Freiburg. É autor de A Arte do Combate (2003), organizou mais de duas dezenas de livros e traduziu outros tantos. Sua tese de doutorado, sobre o poeta Heinrich Heine (Lazarus über sich selbst: Heinrich Heine als Essayist in Versen) foi publicada em 2004, na Alemanha. É autor ainda da Estilhaços (2006), coletânea de aforismos, epigramas e contos em forma de glossário, e do romance Maisquememória (2007).

DireÇÃO das Leituras: Curso de Direção Teatral - ECO/ UFRJ
Supervisão de Direção: José Henrique / Direção Teatral - ECO/ UFRJ
Direção das Leituras:
Gabriela Martins Bóris e Dóris, de Luiz Vilela
Fernanda BernardesSob o Peso das Sombras, de Francisco J. C. Dantas
Nathália DillO Dia em que Getúlio Matou Allende, de Flávio Tavares
Eduardo MarvinMeu Filho, Minha Filha, de Fabrício Carpinejar


Cultural
EMERJ – Fórum Cultural

Livro Aberto – Ano VI
Encontros Literários e Leituras Encenadas
Datas: 3, 10, 17 e 24/9
Entrada Franca – 18h30

Programação:
3/9 – Luiz Vilela – Bóris e Dóris
10/9 – Francisco J. C. Dantas – Sob o Peso das Sombras
17/9 – Flávio Tavares – O Dia que Getúlio Matou Allende
24/9 – Fabrício Carpinejar Meu Filho, Minha Filha

Direção das Leituras: Curso de Direção Teatral da ECO/UFRJ
Local: EMERJ – Av. Erasmo Braga, 115 - 4° andar – Centro – RJ
(Prédio do Fórum Central)

Informações: Cultural EMERJ, das 12h às 18h
3133-3366/ 3133-3368
culturalemerj@tj.rj.gov.br / www.emerj.rj.gov.br

Apoio Cultural: Bertand Brasil / Companhia das Letras / Global / Record

Realização
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro – TJERJ
Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro – EMERJ
Cultural EMERJ



Crédito da Imagem
Pierre-Auguste Renoir, “Claude Monet, ou Le Liseur”, 1874. 
Óleo sobre tela / Galeria Nacional de Arte - Washington

 

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